Com a chegada do mês de Setembro, observa-se que acontece um aumento considerável na execução do Hino Nacional Brasileiro, em função da semana da Pátria, além do fato de que, em muitas cidades, é normal no dia 7 de setembro acontecer desfiles cívicos priorizando a execução de temas decorrentes da situação política, social, cultural e até ecológica, incluindo alertas, homenagens e até protestos.
O fato é que, apesar da versão do Hino Nacional Brasileiro não ser tão recente, muitas pessoas ainda apresentam dificuldade em cantá-lo.
Observe alguns vídeos:
Sonoramente é muito agradável ouvir o Hino Nacional Brasileiro, mas por que será que é tão difícil ?
Para entender é importante que se conheça algumas considerações históricas:
A música foi criada em 1822 por Francisco Manuel da Silva, recebendo inicialmente o nome de “ Marcha Triunfal”. Essa música tornou-se bastante popular durante os anos seguintes, e recebeu duas letras. A primeira , produzida quando Dom Pedro I abdicou do trono, foi de autoria de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva. A letra era carregada de ressentimentos e até inultos aodomínio dos portugueses. Já a segunda letra, de autoria desconhecida, corresponde ao període de coroação de D. Pedro II e exagera nos elogios ao soberano.
Após a Proclamação da República em 1889, um concurso foi realizado para escolher um novo Hino Nacional. A música vencedora, entretanto, foi hostilizada pelo público e pelo próprio Marechal Deodoro da Fonseca. Esta composição ("Liberdade, liberdade! Abre as asas sobre nós!...") seria oficializada como Hino da Proclamação da República do Brasil, e a música original, de Francisco Manuel da Silva, continuou como hino oficial. Somente em 1906 foi realizado um novo concurso para a escolha da melhor letra que se adaptasse ao hino, e o poema declarado vencedor foi o de Joaquim Osório Duque Estrada, em 1909, que foi oficializado por Decreto do Presidente Epitácio Pessoa em 1922 e permanece até hoje.
Para que se entenda qualquer produção, entre as suas mais diversas formas de manifestação ( literária, arquitetônica, artística, musical ...), é necessário que se conheça o contexto histórico em que foi produzida. De 1906 até hoje, não só o tempo passou, mas devemos reconhecer que a letra fala das belezas de uma terra , que sem utilizar de falsa modéstia continua igual.
Mas ainda não termina por aqui. De acordo com um vídeo disponibilizado na internet, e matéria já veiculada em alguns meios de comunicação, existiu uma introdução que foi retirada do Hino. Confira no vídeo abaixo:
Desvendando o vocabulário utilizado
A matéria abaixo foi publicada pelo Jornal Zero Hora e é bastante esclarecedora:
Hino idolatrado e incompreendido
Símbolo nacional ainda é pouco entendido pela maioria das pessoas
por FERNANDA MENEGHEL/ Santa Maria/Agência RBS
"O cara que proclamou a república gritou do outro lado que queria proclamar. Aí ouviram do Ipiranga". A frase é o entendimento de um aluno do 2º ano do Ensino Médio de uma escola de Santa Maria sobre a primeira estrofe do Hino Nacional, que reconta o episódio do grito da Independência. A confusão não é exclusividade dele. Hoje, dia em que se comemoram os 184 anos da Independência do Brasil, o símbolo máximo do patriotismo ainda é pouco entendido. Veja a seguir o significado de seus versos:
Entenda os versos
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Na primeira linha, a letra do hino menciona o Ipiranga. Esse é o nome de um rio (hoje córrego) que fica no bairro de mesmo nome na cidade de São Paulo. Foi às margens do Ipiranga que, simbolicamente, teria sido declarada a Independência do Brasil pelo então príncipe e herdeiro do trono de Portugal, dom Pedro.É justamente a independência o foco da primeira parte do hino. Seria uma tentativa de resgatar a idéia de uma nação que estaria se formando desde 1822. Os ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) são uma referência para as idéias de igualdade, citadas na letra do hino.
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
“Nossos bosques têm mais vida”,
“Nossa vida” no teu seio “mais amores”.
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
O ufanismo era uma tendência forte na época da elaboração da letra do hino, mas o preconceito racial, fruto da escravidão dos negros, era um fato que o país preferia esconder. Exaltar as riquezas naturais do país foi a forma encontrada para alimentar o sentimento de amor à pátria e, de quebra, empurrar para baixo do tapete as vergonhas do preconceito racial.
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
– Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
Depois da proclamação da República, a bandeira se tornou um símbolo nacional. Ela buscava enaltecer ideais positivistas. As palavras Ordem e Progresso descrevem a sociedade idealizada por esta corrente. Os positivistas eram apenas um dos grupos que lutavam pelo poder depois da proclamação da República. Na divisão dos pães, eles acabaram ganhando o direito de expor suas idéias na bandeira.
A interpretação do contexto histórico do hino foi feito por Beatriz Teixeira Weber. Ela fez um estudo baseado no livro A Formação das Almas, de José Murilo de Carvalho. Beatriz é professora de história da Universidade Federal de Santa Maria
A versão (como ficaria...)
Ouviram do Ipiranga as margens tranqüilas
De um povo heróico o grito estrondoso,
E o sol da liberdade, em raios reluzentes,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante
Se a prova dessa igualdade
Conseguimos conquistar com valentia,
Em teu seio, ó Liberdade
Desafia o nosso peito a própria morte
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio luminoso
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu bonito céu, alegre e claro,
A imagem da constelação do Cruzeiro do Sul se sobressai
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, destemido gigante,
E o teu futuro espelha esta grandeza
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos desta terra és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
Deitado eternamente em berço grandioso,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Tu brilhas, ó Brasil, grande flor da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais graciosa
Teus alegres, lindos campos têm mais flores;
“Nossos bosques têm mais vida”,
“Nossa vida” em teu seio “mais amores”
Ó Pátria amada,
Idolatrada
Salve! Salve!
Brasil, de amor eterno seja símbolo
A bandeira que exibes estrelada,
E diga o verde-amarelo desta bandeira
– Paz no futuro e glória no passado
Mas, se for preciso lutar pela justiça,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte
Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
Saiba o significado (dicionário...)
Ipiranga: riacho localizado em São Paulo, onde foi declarada a Independência do Brasil, por dom Pedro
Plácidas: serenas, tranqüilas, mansas, sossegadas
Brado: grito (o Grito do Ipiranga), clamor
Retumbante: que retumba, que reflete com estrondo, que ecoa, que ressoa
Fúlgidos: que têm fulgor, brilhantes, cintilantes
Penhor: garantia, segurança, prova, valor de uma coisa que dá direito a outra
Seio e peito: alma, interior, coração, âmago
Idolatrada: adorada, venerada
Vívido: que tem vivacidade, ardente, intenso, vivo, luminoso, brilhante, expressivo, significativo
Límpido: nítido, claro, limpo
Cruzeiro: a constelação do Cruzeiro do Sul
Resplandece: brilha muito, rutila, releva-se, sobressai
Impávido: que não tem medo ou pavor, destemido
Colosso: enorme, gigante, estátua descomunal
Espelha: retrata, reflete, deixa ver
Fulguras: brilhas, resplandeces
Florão: ornamentação de ouro e/ou pedras preciosas no centro de uma coroa
Garrida: alegre, brilhante, viva, elegante
Lábaro: bandeira (estandarte), a Bandeira Nacional (estrelada)
Verde-louro: verde-amarelo
Flâmula: bandeira
Clava forte: arma forte (a guerra)
(FONTE: Disponível em: ZERO HORA digital - Porto Alegre, 07 de setembro de 2006. Edição nº 14989 -. Acesso em: 07 set. 2006.)
